
Por Marcos Eduardo Marinho
O sentimento
Você lê os dados, acompanha as mudanças, tenta organizar o cenário,
mas, na prática, já está operando sem um critério claro sobre o que exatamente constitui o seu trabalho.
E você vai percebendo uma certa confusão e perda de referência claras.
Quando os critérios que estruturavam o seu lugar no trabalho, desaparecem, alguém passa a definir seu valor sem que você perceba.
Recentemente, uma pesquisa mostrou que modelos como Claude já conseguem executar parcela relevante das tarefas de programadores, analistas financeiros e representantes de atendimento.
Ao mesmo tempo, observamos que a adoção real ainda é desigual, concentrada em nichos, longe de substituir o trabalho como sistema.
Vamos vendo e ouvindo líderes dizendo para não tratar a IA como ameaça.
Mas nenhum deles consegue dizer com precisão o que vem depois.
Essa contradição não é transitória, mas parte de um novo ambiente emergente.
Dentro das organizações, algo mais silencioso acontece.
Nem colapso.
Nem revolução.
As pessoas continuam trabalhando,
mas sem saber exatamente o que é esperado delas.
Sem critério estável.
Sem saber se o que fazem hoje ainda será o que farão amanhã, mês que vem, ano que vem.
A conversa pública fala de transformação.
A experiência pessoal é bem outra:
confusão, sobrecarga
e uma sensação difusa de que as regras estão mudando sem aviso.
Está ocorrendo uma perda de legibilidade do trabalho
Durante muito tempo, trabalho significava algo relativamente estável:
um conjunto claro de tarefas, expectativas e critérios de avaliação.
Você sabia o que era bom desempenho.
Sabia o que fazia avançar uma carreira.
As aspirações tinham direção.
Isso vem se fragmentando.
Os dados mostram isso com muita precisão:
não são apenas empregos sendo substituídos,
são pedaços de trabalho sendo absorvidos de forma irregular.
O que sobra é um campo instável,
onde a fronteira entre o automatizável e o insubstituível se move continuamente.
Sem aviso e sem critério explícito.
O centro do problema
A pergunta
“o que a IA vai substituir?” não é suficiente mais
Devemos acrescentar uma mais direta
“Você consegue operar no dia a dia sabendo exatamente qual é o seu papel,
ou já está reagindo a um ambiente que se redefine mais rápido do que você consegue acompanhar?
Isso começa a aparecer de formas sutis.
O burnout deixa de ser apenas excesso de carga.
Passa a ser desorientação estrutural.
O esgotamento de quem corre numa pista que não para de se redesenhar.
As aspirações vão perdendo força muito em função de que
os critérios de avanço deixam de fazer sentido.
E os próprios arquitetos dessa transformação já não falam em profissões.
Observe atentamente no discurso, eles começam a falar em adaptabilidade, julgamento, presença humana, tudo aquilo que não cabe em métricas estáveis e reconhecíveis.
Nada disso aponta para um colapso iminente, é bom que se diga.
Mas a partir de agora teremos que lidar com algo mais difícil:
O fato de que trabalho continuará existindo,
mas já deixou de ser compreensível para quem o executa.
O ponto que não pode mais ser evitado
Em algum momento, isso deixa de ser um fenômeno externo.
E vira um problema direto, seu inclusive, que neste momento chegou até aqui na leitura.
Você precisa checar se consegue explicar com precisão:
- o que faz
- o que entrega
- como isso será avaliado
E dependendo da sua resposta, você pode não estar mais executando um papel.
Mas tentando decifrar, em tempo real,
se ainda tem um.
Texto publicado originalmente na ANF — As Novas Formas
Infraestrutura cognitiva para leitura do trabalho contemporâneo.
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